05/09/2017 / Em: Entrevistas

 

Por Orson Peter Carrara

 
A verdadeira cura está na mudança dos nossos sentimentos

Ricardo de Souza Cavalcante (foto), espírita de berço, natural da cidade de Garça (SP), atualmente residente em Botucatu (SP), é o nosso entrevistado. Médico infectologista no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, é o atual presidente da Associação Médico-Espírita de Botucatu, com atuação regular no Centro Espírita Caminho da Luz, da mesma cidade.

Como lhe surgiu interesse pela área da infectologia?

Para aqueles que não sabem, a infectologia é o ramo da medicina que estuda e trata das infecções. Embora ainda predomine a visão materialista, tal como as especialidades médicas em geral, a infectologia é uma área da medicina que busca compreender o indivíduo como um todo, considerando seus aspectos genéticos, comportamentais, sociais e ambientais. Além disso, o fato de lidar com grande contingente de indivíduos que vivem em condições de vida precárias, transitando entre a pobreza e a miséria, pois neles incidem uma enormidade de doenças infecciosas, nos pareceu demasiadamente interessante, uma área onde poderíamos prestar auxílio aos mais necessitados.

Que paralelo se pode estabelecer entre essa ciência e o Espiritismo?

Tudo que se refere à criatura humana relaciona-se com o Espiritismo. Não é diferente na medicina. Como Allan Kardec nos aponta no livro “A Gênese”: o Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do universo (o espírito), toca forçosamente na maior parte das ciências. Sendo o espírito o responsável direto por seus atos, experimenta as consequências dos mesmos, na medida sua intenção, seja boa ou má. Embora receba a contribuição de fatores físicos, tais como a alimentação, as viciações, os agentes infecciosos, o processo de adoecimento tem suas origens na alma, no descumprimento das leis divinas, que lesionam o perispírito e transmitem essa desordem ao corpo físico.

Numa abordagem espírita sobre infecções, que aspectos ficam mais em evidência?

Embora as infecções apenas aconteçam diante da invasão de um micro-organismo em nosso corpo físico, tais como vírus, bactérias, fungos ou protozoários, esse fenômeno somente é possível se nossas defesas orgânicas estiverem incapacitadas de trabalhar adequadamente. André Luiz, no livro “Evolução em Dois Mundos”, diz-nos que há um ruptura da harmonia das células do sistema imunológico, tanto no perispírito quanto no corpo físico, que permite a invasão microbiana.

Considerando que nossas instabilidades emocionais e psíquicas, e, claro, igualmente morais, afetam diretamente a saúde corpórea, pode-se afirmar que muitas doenças, no caso por meio das infecções, se instalam em função de nosso padrão moral e pelas emoções desequilibradas que alimentamos?

Certamente. Manoel Philomeno de Miranda, por meio da mediunidade de Divaldo Pereira Franco, nos apresenta na introdução do livro “Painéis da Obsessão” que mau humor, pessimismo, revolta, ódio, ciúme, lubricidade e viciações de qualquer natureza causam importante dano às nossas células do corpo físico. Na obra em questão, o autor espiritual explica que tais comportamentos emocionais levam à perda do controle imunológico e a uma incapacidade de as células de defesa de nosso organismo agirem de modo adequado para combater os agentes infecciosos.  Além disso, M. P. Miranda coloca que tais sentimentos negativos produzem matéria mental que serve de alimento para os micro-organismos infectantes. Gostamos muito de citar essa obra, porque ela representa um verdadeiro tratado de medicina e infectologia.

Trazendo seu conhecimento profissional e acadêmico, nas situações vivenciadas, agora à luz do conhecimento espírita, como podemos entender as infecções sob o prisma espiritual?

Resumidamente, podemos considerar que a origem de toda doença está no espírito ao descumprir as leis divinas. Envolvido dos sentimentos negativos que o afligem, seja pela culpa ou pela mágoa, pela raiva ou pela revolta, o espírito imprime sobre seu períspirito, que é seu veículo de expressão, uma área de enfraquecimento energético. Isso pode ser decorrente de sentimentos experimentados em passadas existências e desconhecidos na atualidade devido ao mecanismo natural de esquecimento do passado, ou pelo comportamento mental presente. Tendo o períspirito íntima ligação com o corpo físico, este, por sua vez, irá obedecer ao comando originário da mente, incapacitando suas defesas orgânicas. Diante das condições ambientais e comportamentais a que o indivíduo se encontra exposto, pode entrar em contato com agentes infecciosos tais como vírus, bactérias, fungos ou protozoários, permitindo a invasão destes e consequentemente o adoecimento.

De suas lembranças e estudos, o que lhe parece mais marcante?

Algo nos chamou muito a atenção durante os estudos da coletânea de André Luiz, pela psicografia de Francisco Candido Xavier. Na obra “Missionários da Luz”, André Luiz nos explica que existem agentes infecciosos no mundo espiritual, que podem afetar tanto encarnados quanto desencarnados, a depender da conduta mental adotada. Semelhante aos micro-organismos terrenos, que nos parasitam o corpo físico, essas minúsculas criaturas nos consomem as energias físicas e espirituais.

Fale-nos de sua experiência com a AME-Botucatu.

Desde há muitos anos, reuniões de estudo que analisam a interface entre saúde e Espiritismo vêm ocorrendo na cidade de Botucatu. No ano de 2004 ocorreu o primeiro Congresso de Saúde e Espiritualidade, sediado na Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, organizado por esse grupo espírita de médicos, professores, alunos e outros profissionais que se interessavam em estudar o tema. Esse evento teve grande aceitação e tornou-se tradicional na região. Pelos encontros e desencontros da vida, nada ao acaso, somente pudemos oficializar a Associação Médico-Espírita de Botucatu em 2013. Atualmente, nossa atividade está fortemente voltada ao desenvolvimento de pesquisas científicas que visam trazer a comprovação de conceitos espíritas para o meio médico acadêmico. Recentemente concluímos uma pesquisa que demonstrou a eficácia do passe no tratamento da ansiedade, publicada em periódico científico internacional.

Considerando a parcela de vida existente em bactérias e outros agentes causadores de infecções, qual sua visão espírita sobre essa ligação com a vida humana?

Embora sejam seres microscópios, existe neles a presença do princípio inteligente, ainda que de forma rudimentar, a dirigir as ações dessas pequenas criaturas na natureza. Como os demais seres da criação, exceto o homem, seu comportamento é ainda comandado exclusivamente pelos instintos. A intenção desses agentes causadores de infecção não é a de causar dano ao homem, mas apenas de sobreviver. Na natureza, pelas leis que regem o universo físico e moral, a interação entre os seres vivos é um fenômeno necessário para a evolução. As doenças infecciosas que afligem a humanidade são mecanismos importantes para o reajuste do homem diante de seus abusos e faltas. Assim, a Natureza, comandada pela Providência Divina, utiliza-se desses pequenos seres para oferecer a oportunidade do resgate pelos débitos assumidos, seguindo a lei de causa e efeito.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

A doutrina espírita oferece-nos imenso manancial de informações para compreendermos o fenômeno do adoecimento, visto que suas origens estão na alma, objeto principal de estudo do Espiritismo. Além disso, nos apresenta todos os recursos necessários para superarmos a doença, quando presente, ou evitarmos que ela aconteça, cumprindo desta forma seu papel de Consolador prometido, como sinalizado por Kardec em “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Tais recursos estão bem discutidos nesta obra do codificador, pois é no Evangelho de Jesus que os encontramos. A verdadeira cura está na mudança dos nossos sentimentos, obtidos pela educação da alma.

Suas palavras finais.

Diante das enfermidades que nos assolam o corpo físico, é fundamental que utilizemos os recursos oferecidos pela medicina terrena, para que possamos obter o reajuste do veículo carnal. Mas não devemos esquecer que, embora a medicina tenha alcançado grande desenvolvimento, ainda lhe falta conhecer o espírito. É apenas educando a alma que podemos conquistar a verdadeira cura. Hoje há um grande movimento dentro do Espiritismo focado em estudar esta relação entre a saúde e suas interfaces com a vida espiritual, representado pela Associação Médico-Espírita (AME) do Brasil. Já se somam diversas obras literárias destinadas a essa temática, nas quais o leitor pode aprofundar-se no assunto.