07/04/2018 / Em: Artigos

 

Por Astolfo O. de Oliveira Filho

O leitor Roberto T., em mensagem publicada na seção de Cartas desta edição, enviou à revista o seguinte questionamento:

O livre-arbítrio de uma pessoa pode interferir no livre-arbítrio de outra? Por exemplo: pode uma pessoa, que deveria viver até os 80 anos, morrer em virtude de um atropelamento causado por um estado de embriaguez de outra pessoa que, nesse caso, fez mau uso de sua liberdade de ação? Ou então, se era “destino” da primeira pessoa desencarnar naquele momento, então o infrator nada mais seria que um “instrumento divino” para se cumprir tal episódio, não devendo ser imputado a ele nenhuma culpa ou responsabilidade?

O livre-arbítrio é apanágio da criatura humana.

Trata-se da faculdade que tem o indivíduo de determinar sua própria conduta, ou seja, a liberdade que tem de, entre duas ou mais razões suficientes de querer ou de agir, escolher uma delas e fazer que prevaleça sobre as outras.

Excetuado o caso de alienação mental, nada nos coage nos momentos de decisões próprias, daí ser correto afirmar que somos responsáveis pelos nossos atos e construtores do nosso destino.

Respondendo assim à pergunta inicial, podemos dizer, com base nos ensinamentos espíritas, que uma pessoa pode prejudicar, magoar, ferir e até matar outra pessoa, mas não pode interferir no seu livre-arbítrio, visto que esse atributo é conquista inalienável do ser humano.

A criatura humana exercita o livre-arbítrio a todo momento, seja quando cede a uma tentação, seja quando a ela resiste. Há, no entanto, um instante em nossa vida que o exercício do livre-arbítrio se verifica de forma mais completa. Esse momento é o que precede a reencarnação, quando se elabora a programação reencarnatória daquele que prepara sua volta ao plano corpóreo.

Escolhendo tal família, certo meio social, a pessoa sabe de antemão quais são as provações que a aguardam e compreende, igualmente, a necessidade dessas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir-se de seus preconceitos e vícios. Essas provações podem, evidentemente, ser consequência de um passado nefasto, que é preciso reparar, e ela as aceita com resignação e confiança.

Aprendemos com a doutrina espírita que é estreita a correlação entre livre-arbítrio e responsabilidade. Se agirmos mal, deveremos arcar com as consequências. Se agimos bem, os louros da vitória nos pertencem.

Quem provoca de forma irresponsável um acidente que leva alguém à morte ou à invalidez, deverá responder por isso perante a Lei divina, mesmo quando o momento da morte naquelas circunstâncias fizer parte da programação da pessoa vitimada.

É a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. Sem ela, não seria ele mais que um autômato, um joguete das forças ambientes.

O questionamento feito pelo leitor fere também, indiretamente, duas questões importantes já examinadas nesta revista: o acaso e as mortes causadas por terceiros.