25/09/2017 / Em: Artigos

 

Richard Simonetti

Teodora (500-548), esposa de Justiniano (483-565), tinha birra da reencarnação. Jovem da classe pobre, fora cortesã antes que o imperador se empolgasse por sua beleza. Paixão

fulminante, que a promoveu à mulher mais poderosa do império. Por isso mesmo, julgava

absurdo sujeitar-se ao ciclo das vidas sucessivas, a fim de habilitar-se ao paraíso. Mais razoável uma transferência imediata, ante as prerrogativas de sua posição.

Assim, sob sua inspiração, Justiniano escreveu um tratado contra a reencarnação e determinou que o patriarca de Constantinopla reunisse um sínodo, em 543, para proscrevê-la.

Posteriormente, essa condenação foi apoiada pelo Papa Virgílio e demais patriarcas da Igreja.

A influência de Teodora será, talvez, mera fofoca histórica, mas é significativo constatar que até o século VI a ideia da reencarnação era aceita por boa parte dos teólogos, destacando-se Orígenes (185-254) e Clemente de Alexandria (150-215).

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A proscrição atendeu a motivo mais prosaico: a partir da institucionalização do Cristianismo,

atrelado ao carro do poder temporal, o Céu passou a ser uma concessão da fé. Em tal contexto, não havia lugar para a reencarnação, que substitui a salvação pela evolução, ensinando que todos temos uma meta a atingir – a perfeição, a partir do esforço pessoal, independente dos favores de uma religião.

Não obstante, qualquer leitor atento do Novo Testamento perceberá que Jesus e seus discípulos admitiam as vidas sucessivas. A ideia está muito clara em várias passagens, dentre elas:

  • Atendendo uma indagação de Jesus, os discípulos dizem que o povo julgava fosse ele Elias, Jeremias ou outro profeta (Mateus: 16). Evidente que se aceitava a reencarnação na

comunidade judaica.

  • Jesus se refere a João Batista como a reencarnação de Elias, (Mateus: 11). Diziam as escrituras que o profeta voltaria para anunciar o Messias.
  • Jesus diz a Nicodemos que é preciso nascer de novo para ganhar o Reino de Deus (João: 3). E explica como é possível “entrar de novo na barriga da mãe”, segundo a expressão de seu

interlocutor.

  • Os discípulos indagam, diante de um cego de nascença, quem pecou para que isso acontecesse (João: 9). A pergunta não teria sentido se não admitissem a anterioridade da vida

física.

  • Jesus refere-se aos que não podem mais morrer (Lucas, 20:36). Só é

possível “remorrer” vivendo mais de uma vez.

  • Jesus curou um homem paralítico havia 38 anos e lhe recomendou que não pecasse mais

para que não lhe sucedesse pior (João: 5) Se a expectativa de vida não chegava

há meio século, como justificar tão longo sofrimento por falta cometida em

inimputável infância ou adolescência?

Se no passado aconteciam

interpolações, supressões e adulterações nos textos evangélicos, precariamente preservados, por que os teólogos não eliminaram a ideia reencarnacionista, claramente enunciada no Novo Testamento?

É simples entender. Até o século IV, havia uma quantidade imensa de textos apócrifos, de legitimidade duvidosa – Evangelhos de Pedro, Maria, Paulo, Felipe, Bartolomeu, Tiago…

O papa Dâmaso (304-384) decidiu, então, convocar um monge de grande cultura, Eusébio Jerônimo (347-420), que deveria efetuar a tradução da Bíblia para o latim, selecionando, no

Novo Testamento, os textos de autenticidade não questionada.

Surgiria dali a Vulgata, a versão oficial da Igreja Católica. Ocorre que Jerônimo, presumivelmente reencarnacionista, conservou as passagens que lhe faziam

referência.

Perto de um século e meio depois, quando se pretendeu eliminar a reencarnação, estavam consolidados os textos da Vulgata e já não era possível mudar. Isso obrigou os teólogos a

raciocínios tortuosos para explicar textos que ficam obscuros e sem sentido, se não admitirmos as vidas sucessivas.

Daí a contradição: nega-se a reencarnação, mas ela está presente no Evangelho. Equivale a tapar o sol com a peneira.

De todas as distorções cometidas na Idade Média, a eliminação do princípio das vidas sucessivas foi, talvez, a mais grave. Sem essa base fundamental para melhor compreensão da justiça divina, os teólogos perderam-se em fantasias escatológicas, que exigem boa dose de

ingenuidade para serem aceitas.

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A reencarnação é uma lei divina. Consequentemente, mais cedo ou mais tarde todas as religiões acabarão por assimilá-la, assim como se viram forçadas a admitir que a Terra não é o centro do universo, ante o avanço inexorável do conhecimento humano.

Se não o fizerem, serão atropeladas pelo desenvolvimento da cultura reencarnacionista, que tem no Espiritismo seu representante maior.

Não há como nos furtarmos ao óbvio: O princípio das vidas sucessivas é a chave indispensável para equacionar os enigmas da Vida, sem fofocas!