07/06/2017 / Em: Artigos

 

Richard Simonetti

O sábio indiano passava com um discípulo, às margens do Ganges.
Em dado momento, viu um escorpião que se afogava.
Pressuroso, estendeu a mão e o retirou das águas.
Previsivelmente, o escorpião deu-lhe uma ferroada.
Não obstante a dor, o sábio, cuidadoso e paciente, o depositou em terra firme.
Teimoso, o bicho voltou ao rio.
O discípulo, admirado, viu seu mestre salvá-lo novamente, submetendo-se a nova agressão.
O escorpião, que parecia orientado por vocação suicida, retornou às águas.
Repetiu-se a cena.
A mão do sábio intumescia, lancinante dor.
– Mestre – balbuciou, confuso, o discípulo, – não estou entendendo. Esse escorpião o atacou três vezes e o senhor continua empenhado em socorrê-lo?!
Ele sorriu.
– Meu filho, é da natureza dele picar; a minha é salvar!

Grande sábio, não é mesmo, leitor amigo?
Se responder negativamente, concordo com você.
Faltou-lhe um componente essencial à sabedoria:
O bom senso, a capacidade de avaliar uma situação e fazer o melhor.
Se o exercitasse, simplesmente apanharia um arbusto ou vareta, recolheria o escorpião e o deixaria longe do rio.
Fácil, fácil, sem problemas, sem picadas, sem dores…
Camille Flammarion (1842-1925) famoso astrônomo francês, fazia o elogio fúnebre de Hippolyte León Denizard Rivail (1804-1869), emérito professor, imortalizado como Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita.
Destacava que Kardec não fora reconhecido pelos homens de ciência, já que não colecionara títulos acadêmicos; mas muito mais que o simples saber dos que freqüentam as academias, revelara o atributo fundamental da sabedoria.
E o definiu em inesquecível epíteto:

Foi o bom senso encarnado.

Desde tempos imemoriais, os homens colhem experiências envolvendo o sobrenatural.
No histórico de qualquer família, infalivelmente, há notícias relacionadas com o assunto.
Em meados do século XIX, na França, estavam em efervescência fenômenos dessa natureza.
Envolviam mesas que se movimentavam e até se comunicavam, em insólita telegrafia, com pachorrenta indicação das letras do alfabeto, compondo instigantes diálogos com a madeira.
As pessoas divertiam-se, sem questionar como era possível um móvel, sem nervos e sem cérebro, exercitar o pensamento.
Usando de bom senso, Kardec concebeu, de imediato, que havia seres inteligentes produzindo os fenômenos.
Imaginou, em princípio, fossem os próprios participantes a agir, inconscientemente, por artes de desconhecida província cerebral.
Para comprovar essa tese, preparou perguntas sobre assuntos que só ele conhecia.
A mesa respondeu com propriedade.
Certamente, sua própria mente interferia.
Formulou questões sobre assuntos que desconhecia.
A mesa, impávida, não vacilou.
Respostas absolutamente corretas.
Fosse um parapsicólogo, desses que abominam avançar além dos estreitos limites de suas convicções materialistas, certamente formularia hipóteses mirabolantes, relacionadas com um ser onisciente a dormitar nos refolhos da consciência humana. Um deus interior, capaz de responder a qualquer pergunta, ainda que a resposta estivesse num livro enterrado em recôndita região, no Himalaia.
Ocorre que Kardec não era simples “sábio”.
Tinha bom senso.
Logo percebeu que, por trás daquelas manifestações, havia seres invisíveis, no mais vigoroso movimento jamais desenvolvido pelos poderes espirituais que nos governam, com o objetivo de combater o materialismo, estabelecendo uma ponte entre o além e o aquém.
Descobrindo os Espíritos, os seres pensantes da criação, Kardec empolgou-se com as perspectivas que aquele contato oferecia.
Mas, cuidadoso, escreve, em Obras Póstumas:

Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas idéias e nas crenças; fazia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir.

Isso é bom senso.
Sem ele, ficaremos sempre jungidos aos estreitos limites de nossa crença, engessados por princípios dogmáticos, como ocorre com muitos religiosos, que poderiam iluminar seu entendimento se tivessem o bom senso de avançar além das restrições que lhes são impostas.
Muitos se recusam a tocar um livro espírita, como se fora ameaçador escorpião.
Não aprenderam o elementar:
Escorpiões somos todos nós, dominados por tendências agressivas e viciosas, a nos debatermos nos turbilhões da ignorância.

Salva-nos o livro espírita, quando temos o bom senso de compulsar suas páginas luminosas.
Livro Para Rir e Refletir